Resenha | A volta do parafuso (Henry James)
- Michelle Leonhardt
- Nov 22, 2025
- 5 min read
Updated: Nov 23, 2025
Olá leitores, tudo bem? Hoje estou por aqui para compartilhar minha impressões sobre "A volta do parafuso" de Henry James. Bom... já vou começar dizendo que esse livro começou a me despertar curiosidade desde a época em que assisti o filme "Os outros". Apesar de não ser uma adaptação, eu sempre ouvia falar que o filme teve alguma inspiração no livro, que é considerado um clássico do terror psicológico. Esse foi o grande gatilho para eu colocar o livro na minha lista de desejados (e eu fui presenteada com ele esse ano, que alegria!).
A história do livro começa com um grupo de amigos reunidos na véspera do Natal para contar histórias de fantasmas. Um desses amigos fala que conhece um caso muito assustador sobre uma governanta que foi contratada para cuidar de duas crianças em uma mansão isolada no interior da Inglaterra.
A partir desse ponto, passamos a acompanhar a história da governanta: uma mulher que foi contratada para cuidar de Flora e de Miles (duas crianças) pois seu tutor não vive na propriedade e não deseja ser incomodado por nada. O clima mais sombrio já começa a aparecer na história aqui: tudo isso se passa no período vitoriano, ou seja, já dá para imaginar o estilo gótico, aquela atmosfera meio sobrenatural.
Depois de instalada na mansão, a governanta passa a sentir algum desconforto e começa a notar algo estranho na casa. Lentamente ela começa a perceber presenças silenciosas e a ver figuras misteriosas em alguns pontos da propriedade. Instigada, ela toma para si o papel de investigar o que pode estar acontecendo e acaba por descobrir que dois antigos empregados da propriedade, hoje já falecidos, tiveram um passado meio turbulento na casa. Assim, a história vai avançando, com a governanta tentando entender quem está assombrando a propriedade e o que essas presenças desejam.
Ela passa a fazer tudo que está ao seu alcance para proteger as crianças, enquanto vivencia momentos assustadores dentro da atmosfera sombria da mansão.
Minhas impressões sobre a obra:
Comecei a ler esse livro achando que seria uma leitura bem rápida, afinal, são menos de 200 páginas. Que engano meu... demorei bastante tempo para finalizar pois achei o desenvolvimento da história muito lento. Certamente, esse não é o tipo de livro eletrizante para o leitor habituado ao contemporâneo.
Mas... é preciso levar em conta todo o contexto da obra: é uma obra que foi publicada em 1898 e liberada ao público da época em 12 partes. Levando em consideração esse contexto, é fácil entender a lentidão do desenvolvimento. Quem tem alguma experiência com clássicos sabe que a narrativa nessas obras tem outro ritmo: naquela época a experiência cotidiana era bem diferente, a vida fluía de forma mais lenta e mais reservada, onde os livros eram a principal fonte de entretenimento.
A volta do parafuso, portanto, segue bem nessa linha narrativa: a história vai avançando em um ritmo meticuloso, a construção do suspense é feita devagar meio que colocando o leitor dentro da propriedade junto com a governanta. A escrita também é bem instrospectiva. Me parece que a ideia na obra é deixar o leitor ficar incomodado, tal qual a governanta se sentiria dentro daquela casa.
Se imaginarmos o leitor da época, por exemplo, vamos imaginar pessoas que, em geral, viviam em contextos mais isolados. As noites eram mais escuras (as ruas não eram super iluminadas e a luz elétrica não era o que é hoje), as casas mais afastadas (as pessoas experimentavam mais o silêncio), a ciência não era algo difundido e as pessoas acreditavam muito mais no inexplicável.
Enquanto eu lia, me lembrei inclusive da época da minha pré adolescência e adolescência, quando a moda eram os filmes de terror slasher: muitas vezes eu assistia esses filmes em noites em que meus pais tinham algum evento e iam voltar tarde. Aí, na hora de dormir, no silêncio da cidade (que nunca é tão silencioso!), é óbvio que eu começava a ouvir sons imaginários como se estivessem dentro da minha casa e por vezes até imaginava ver vultos que, obviamente, não existiam.
Daí já é possível perceber porque as histórias de terror vitoriano fizeram tanto sucesso, né? As próprias pessoas já viviam em um contexto em que esse tipo de história era gatilho para que imaginassem sombras inquietantes, barulhos inexplicáveis... era a mente mergulhando na história, criando a atmosfera de medo tal qual os filmes slasher fizeram para a minha geração.
Acredito que demorei tanto nessa leitura não porque se trata de um livro ruim, mas porque eu vivo em um mundo contemporâneo, em um ambiente urbano e barulhento. Dessa forma, os elementos que eram responsáveis pela imersão do leitor da época já não me colocam no mesmo esquema mental. Por isso minha avaliação final de apenas 3 estrelas, já que eu não senti medo em momento nenhum, sequer senti receio ou inquietação, só senti sono.
Por fim, o final do livro é daquele tipo ambíguo, onde a interpretação ficará a cargo do leitor. Apesar de todo o sono que eu senti durante a leitura da obra, gostei do final. Achei que fecha com maestria a inquietação que o autor quis construir, mas deixando ao leitor da época pensando no desfecho por semanas.
Vale a pena ler?
Vou ser bem honesta aqui: eu não indicaria esse livro para todo mundo. Acho que o leitor contemporâneo que não é acostumado aos clássicos vai estranhar muito a obra. Conforme já comentei acima, não é uma obra ruim, apenas não é uma obra que prende, que te faz ficar acordado querendo saber o que vai acontecer.
Eu indicaria a leitura da obra somente para aqueles que gostam da literatura clássica, que estão dispostos a entender a influência dessa obra em muitos livros e filmes que se seguiram. Como eu comentei no começo do post, o filme "Os outros" se inspira um pouco justamente pelos seus elementos: a casa sobria, a sugestão do que pode estar acontecendo, aquela pitada do inexplicável e depois a reviravolta final. Vale lembrar que esse filme não é uma adaptação da obra, ele apenas se inspira em elementos dela.
Hoje em dia, acho que é uma obra que funciona melhor em outro tipo de mídia: cinema, tv, etc... Inclusive, muitos filmes de bastante sucesso foram adaptados da obra (ou inspirados), a própria editora fez um post elencando quais são eles aqui.
Vale lembrar que, se você procurar na internet, é uma história muito discutida e muito estudada. Existem muitas teorias sobre ela, sobre as personagens, sobre os significados. Isso, por si só, já fez valer a leitura, apesar do meu sono. Eu dirique que o meu sono durante a leitura virou uma imensa curiosidade quando comecei a procurar estudos mais aprofundados sobre a obra e seus possíveis significados e interpretações.
Antes de terminar o post, deixo a ficha técnica:

Título: A volta do parafuso
Autor: Henry James
Editora: Darkside
Ano: 2024
Páginas: 192
Título Original: The turn of the screw
Minha avaliação: ⭐⭐⭐
Sinopse: Na véspera de Natal, alguns amigos se reúnem em volta de uma fogueira. Um deles lê um manuscrito de uma mulher já falecida, sobre a época em que ela foi encarregada de educar e proteger dois órfãos de descomunal beleza, Flora e Miles, na propriedade rural de Bly, em Essex, Inglaterra. Com um ritmo magistral, que mantém o suspense até o fim, acompanhamos a narrativa dessa mulher que conta com intimidade o desenrolar dos eventos com as crianças e os funcionários da mansão.
Existem muitas edições dessa obra mas eu li nessa edição da Darkside que é bem bonita: capa dura, ilustrações e diagramação/visual exemplar.
E você: já leu essa obra ou outra desse mesmo gênero? O que achou?
Até a próxima!
n. 42












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