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Quando o celular rouba o lugar dos livros: uma conversa sobre ressaca literária

  • Writer: Michelle Leonhardt
    Michelle Leonhardt
  • Nov 15, 2025
  • 3 min read

De vez em quando eu entro naquela fase em que nenhum livro parece bom o bastante. Pulo de título em título, começo várias leituras e parece que nada flui. Tudo parece chato, lento, distante. Nesses períodos, percebo que até uma formiga andando pelo chão consegue disputar minha atenção com o livro da vez (sim, já aconteceu). É a temida ressaca literária.


Normalmente, eu lido bem com isso, afinal, leio por prazer, e ficar uns dias sem ler nunca foi problema. Mas a leitura é também o meu ponto de equilíbrio. Quando estou envolvida com uma história, sinto minha mente mais leve, meu humor melhor, minha atenção mais afiada. É o meu equivalente da academia. Sabe aquele efeito que algumas pessoas sentem na academia? Que esquecem dos problemas, saem com a mente mais clara e o humor melhor? Pois bem: os livros são a minha academia.


O problema é quando essa “pausa” se estende por semanas. A falta de leitura começa a pesar, e nenhuma atividade parece preencher o mesmo espaço.


Existem muitos motivos pra uma ressaca dessas:


  • Terminar um livro perfeito e achar que nada mais vai se comparar (eu sei, você sabe, nós sabemos como é...)

  • Estar num momento de vida tão cheio que o cérebro não tem espaço pra mergulhar em outra história.

Mas tem um vilão que eu considero o pior de todos e é sobre ele que quero falar hoje: o uso excessivo do celular.



O celular e a ressaca literária


Ler é um estímulo lento e profundo. Exige foco, paciência e silêncio mental. Já o celular nos acostuma com o oposto: uma enxurrada de recompensas rápidas, notificações, vídeos curtos e rolagem infinita. Com o tempo, o cérebro começa a "estranhar" o ritmo da leitura e reage com desinteresse quando um estímulo mais longo aparece.


Além disso, a atenção fragmentada vira rotina. Pulamos de uma aba para outra, de uma conversa para outra, e mesmo quando pegamos um livro, a mente continua zanzando por mil assuntos. Resultado: a leitura perde espaço e o prazer que vinha junto com ela também.


Resumindo, as coisas que eu passei a perceber quando entro no ciclo do celular:


1. É fácil viciar o cérebro em dopamina rápida


Rolagens infinitas, vídeos curtos, notificações… tudo isso faz o cérebro querer recompensas imediatas (cada vez mais e em um ciclo infinito).


2. A atenção fragmenta


Alternar entre apps, mensagens e leitura quebra o foco. Mesmo quando você tenta ler, a mente fica pulando de pensamento em pensamento.


3. O tempo (e o espaço mental) pra ler encolhe


A leitura precisa de tempo vazio, daquele tipo que permite a mente divagar. Quando preenchemos todo o tempo livre com o celular, perdemos o ritmo interno que a leitura exige.



Ok, e o que fazer quando isso acontece?


A saída, pra mim, não é tentar “forçar” uma leitura difícil, mas reacender o prazer de ler.

Relembrar o cérebro de como é bom mergulhar em uma história.


Muita gente recomenda duas coisas:


1. Escolher livros de leitura leve e capítulos curtos.

2. Reler um favorito da infância ou algo nostálgico.


Eu? Concordo em parte.


A primeira dica algumas vezes funciona, mas a segunda… comigo não dá certo de jeito nenhum. Toda vez que tento reler algo confortável, o cérebro simplesmente desliga. Mesmo se for um livro super dentro da minha zona de conforto (alô, ficção histórica!), parece que a faísca simplesmente não vem.



O que realmente me ajuda?


Com o tempo, percebi que preciso reativar o foco de outra forma: algo que envolva curiosidade e que me dê pelo menos um pouco da recompensa mais rápida que o celular dá.


Por isso, desenvolvi o meu próprio método de sobrevivência literária:


1. Escolher thrillers ou suspenses


Esses livros trabalham com perguntas sem resposta, segredos, reviravoltas. A tensão e o ritmo acelerado me mantêm atenta, e mesmo lendo pouco por dia, já sinto que avancei. É quase um treino de foco: quero descobrir o que vai acontecer, e isso me empurra de volta pro hábito da leitura.


2. Ler em outra língua


Esse é o truque de ouro. Quando leio em outra língua, meu cérebro parece que participa mais. Sinto que isso quebra o padrão de dispersão e faz a leitura parecer nova, mais ativa. Além disso, muda completamente o ritmo mental, como se o simples fato de ler em outra língua me colocasse num modo diferente, mais atento e curioso.



Finalizando...


Acho que ressacas literárias fazem parte do ciclo natural de quem lê. Mas quando elas vêm acompanhadas da sobrecarga digital, é um bom lembrete para olharmos nossos hábitos de consumo de informação. Hoje em dia está tão fácil se deixar levar pelo celular e a gente acaba perdendo a motivação e o prazer com qualquer outra atividade. E isso é muito triste e até preocupante.


Até mais!

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