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Resenha | A trança (Laetitia Colombani)

  • Writer: Michelle Leonhardt
    Michelle Leonhardt
  • Aug 12, 2025
  • 6 min read


Hoje estou aqui para deixar minhas impressões sobre o livro lido no meu desafio desencalhe de julho. O vencedor da enquete foi o "A trança" da Laetitia Colombani.



Título:  A trança

Autor:  Laetitia Colombani

Editora: Intrínseca

Ano: 2023

Páginas:  208

Minha avaliação: ⭐⭐⭐⭐ (5/5) ❤️



Sinopse:  "Smita é vítima de todos os tipos de preconceito na sociedade indiana. Seu grande sonho é ver a filha escapar da condição miserável em que vivem e ter acesso à educação formal.

Na Sicília, Giulia trabalha como ajudante na oficina do pai. Mas, quando ele sofre um acidente, ela assume o comando e percebe que o negócio está à beira da ruína.

No Canadá, Sarah é uma advogada renomada. No momento em que está prestes a ser promovida a chefe no escritório em que trabalha, porém, descobre uma doença grave.

Sem saber que estão conectadas por suas questões mais íntimas, Smita, Giulia e Sarah recusam o destino que lhes está reservado e decidem lutra contra ele. Vibrantes, suas histórias remontam a uma imensa gama de emoções muito familiares e que, por isso, tecem uma trama que fala sobre dois aspectos essenciais em nossas vidas: esperança e solidariedade."



Antes de falar das minhas impressões sobre essa leitura, preciso dizer que é muito difícil falar mais profundamente do livro sem soltar um ou outro spoiler. Vou acabar entregando uma ou outra informação que não está na sinopse, mas vou tentar não entregar nada de muito revelador, prometo.


Temos aqui a história de três diferentes mulheres onde a narrativa se divide entre os três pontos de vista alternados de cada uma dessas personagens.


Smita é uma mulher indiana pertencente ao grupo dos Dalits. Ela tem como ofício a limpeza das latrinas da sua comunidade. Casada, Smita deseja um futuro melhor para sua filha, talvez diferente do seu. Iniciamos a história com Smita tomando uma decisão complicada, considerando o ambiente no qual está inserida: mandar sua filha para a escola.


"Smita tomou uma decisão, que se impôs a ela como uma evidência: sua filha irá para a escola. Custou a convencer Nagarajan. Para que?, retrucava ele. Ela até pode aprender a ler e escrever, mas ninguém aqui vai lhe dar um emprego. Quem nasce para esvaziar latrina, esvazia latrina até morrer. É uma herança, um círculo do qual ninguém consegue sair." (p.13)

Porém, ser uma Dalit significa lutar contra uma sociedade inteira. Os dalits são intocáveis. Aqui um parênteses: pelas minhas pesquisas, ser um dalit não é pertencer à casta mais baixa da sociedade como alguns acreditam, mas, sim, estar fora do sistema de castas, ser de um nível mais baixo ainda. Para entender um pouco sobre o sistema de castas e quem são os dalits, você pode acessar esse link 


Giulia é uma mulher italiana que trabalha na oficina do pai como ajudante. Um ofício milenar e especializado, onde a família possui uma forte reputação e tradição. Logo no início da história, Giulia recebe a notícia de que seu pai sofreu um grave acidente e está em coma. Agora, ela precisa entender como gerenciar o negócio da família e, buscando alguns documentos na gaveta do escritório de seu pai, descobre que a empresa está a caminho da ruína financeira.


No Canadá, Sarah é uma advogada de sucesso. Ela é mãe, trabalha fora e está prestes a ser promovida no escritório, onde lutou a vida toda para mostrar seu valor, abdicando de muitos momentos de sua vida em família e de sua própria vida pessoal e carregando consigo a culpa por ter tomado essa decisão.


"Sabia que era mais bem visto sair mais cedo para - tomar um drinque - do que mencionar um problema com a babá." (p.28)

Assim como as outras duas mulheres, Sarah também enfrenta uma condição difícil: descobre um câncer.


A partir de cada particularidade, vamos acompanhando o desenrolar da história: a dura batalha de Smita e sua filha frente ao sistema em que estão inseridas, o desafio de Giulia para manter o negócio da família e a luta de sarah para passar pela sua doença.


Quem é leitor sabe que, geralmente, livros com pontos de vista alternados acabam convergindo para um ponto em que tudo se conecta. Nessa história não é diferente: essas três mulheres terão algo em comum em algum momento, mesmo com vidas tão diferentes.



Uma história cheia de camadas, sobre mulheres, unidas pela "trança"...


Esse livro trata de muitíssimos temas: mulheres, escolhas, preconceitos, sociedade, força e

um montão de outras coisas.


Não vou falar de todos os temas aqui no post pois eu entregaria muitos spoilers. Optei por falar de alguns apenas que me chamaram atenção.


Tal qual o nome do livro já diz, temos aqui uma história que entrelaça diferentes personagens. Achei bem interessante como a autora consegue nos mostrar as diferentes percepções sobre uma mesma "coisa" (nesse caso o cabelo) em diferentes culturas. Ela está falando de cabelos, mas na verdade podemos interpretar de uma forma bem mais profunda.


Enquanto para Smita a ausência do cabelo representa esperança e dignidade, para Sarah ele representa o extremo oposto, ou seja, ele representa a desesperança e a perda de controle. As citações a seguir mostram bem essa dualidade:


"É uma tradição ancestral e milenar: oferecer o cabelo significa renunciar a toda forma de ego, é se apresentar diante de Deus com a aparência mais humilde, mais nua." (Smita - p.160)

"Um homem careca pode ser sexy, uma mulher careca será sempre uma doente, pensa ela." (Sarah - p.152)

Só nesse pequeno detalhe, já é possível perceber o quão sensível é a escrita da autora. O cabelo carrega multiplos significados, atravessando culturas, crenças e experiências. Por exemplo, o cabelo é também um símbolo de transformação de cada protagonista.


Para Sarah ele tem todo o simbolismo de fazer com que ela se desprenda da imagem de perfeição em que construiu sua vida. Ela precisa lidar com a doença e entender que não é a queda do cabelo que a define.


"Sua ferida era invisível, quase indetectável por trás da maquiagem perfeita e dos terninhos de grife. Mas estava ali." (Sarah - p.31)

Para Smita, por outro lado, ele tem outro simbolismo: o de corte com com a ideia de submissão como única forma possível de sobrevivência.


Outra reflexão bem legal que o livro faz é o contraste entre perda e renascimento. Giulia, por exemplo, vê ruir sua estabilidade familiar, apenas para descobrir uma coragem que nem sabia ter.


"... a vida às vezes junta os momentos mais sombrios com os mais luminosos. Dá e tira ao mesmo tempo." (p.81)

Aliás, a personagem de Giulia, para mim, é a que teve, ao mesmo tempo, a mais sutil e a mais forte transformação (e foi a que eu mais gostei de acompanhar!). Sua história é desenvolvida de forma mais silenciosa, mas não menos profunda. Enquanto Smita precisa lutar contra um sistema brutal e Sarah precisa enfrentar o colapso com a própria saúde, Giulia é a única personagem que decide permanecer e reconstruir, apesar do desejo de ruptura dos seus familiares.


"Sua irmã pertence ao time dos céticos, dos que enxergam o mundo em preto, dos que dizem - não - antes de pensar no - sim - . Dos que sempre vão notar o detalhe que destoa na paisagem, a mancha minúscula na toalha, dos que exploram a superfície da vida buscando uma aspereza para esgravatar, como se encontrassem prazer nessas dissonâncias do mundo e fizessem delas sua essência, sua razão de ser." (Giulia - p.156)

No decorrer da sua trajetória, ela precisa e escolhe se moldar ao novo, honrando o saber ancestral. Ela representa nos mostra que permanecer e cuidar também são formas de resistência.


Eu arrisco dizer que "A trança" é um livro sobre a celebração da força feminina em suas múltiplas formas. Mulheres que resistem quando tudo a sua volta desaba. É uma obra profundamente humana onde a coragem não transparece em grandes atos de heroísmo, mas em pequenos atos do cotidiano - muitas vezes em pequenas escolhas internas, que podem mudar uma (ou muitas vidas).



Vale a pena?


A resposta só pode ser sim. Eu amei essa leitura. Não é um livro cheio de reviravoltas, mas é um livro muito emocionante e tocante sobre mulheres, sobre escolhas, sobre preconceitos, sobre sociedade, sobre força e um montão de outras coisas.


O único aspecto negativo que eu ouso falar desse livro é que as histórias não continuam. É possível imaginar o desfecho das personagens, mas o livro não confirma o que acontece com elas. Mesmo assim, eu achei que foi muito bonito o final.


E você, já leu "A trança"? Qual das protagonistas mais tocou você?


Até a próxima.

n.37


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