Resenha | A luz entre oceanos (M. L. Stedman)
- Michelle Leonhardt
- Jan 18
- 6 min read
Olá leitores, tudo bem? Hoje trago a minhas impressões de "A luz entre oceanos". Vi o filme há muitos anos e lembro que gostei bastante na época. Fui procurar mais coisas sobre a história e descobri que era baseado em um livro. Em 2021 recebi o livro de presente de uma amiga, mas deixei ele quietinho até agora quando deu vontade de ler.
Ficha da obra:

Título: A luz entre oceanos
Autor: M. L. Stedman
Editora: Rocco
Ano: 2012
Páginas: 368
Minha avaliação: ⭐⭐⭐⭐ (4/5)
Sinopse: Depois de enfrentar os horrores da Primeira Guerra Mundial, Tom Sherbourne retorna à Austrália e aceita um emprego como faroleiro, em uma longínqua ilha da costa australiana. O lugar propicia refúgio e consolo para os fantasmas do seu passado, e Tom e a mulher, Isabel, estão satisfeitos com a sua vida, a não ser por um fato: não poderem ter filhos.
Numa manhã de abril, um barco vai dar na praia carregando um homem sem vida e um bebê chorando. Isabel interpreta aquele naufrágio como um sinal da benevolência divina e, isolado do mundo real, o jovem casal resolve quebrar as regras sociais e seguir o que o coração lhe diz. Esta decisão, porém, terá consequências devastadoras.
Com extrema delicadeza, M. L. Stedman aborda temas universais como redenção, verdade e a natureza da felicidade e propõe ao leitor participar de um dilema ético e moral envolvendo pessoas bem intencionadas, examinadas sob a luz fria da realidade.
Preciso começar esse post de impressões dizendo que essa capa me chama muito atenção. Gosto muito de livros que se passam em cenários mais isolados, mais inóspitos. Aí me deparo com uma capa linda, em tons de azul, uma ilha isolada, um farol... todos os elementos que me chamam, que praticamente gritam meu nome.
Já li umas duas histórias com farol: uma delas eu amei, escrevi um post nem breve aqui (O farol e a libélula), outra eu li ainda adolescente e foi "O farol do fim do mundo" do Julio Verne. Nossa, são memórias tão legais de livros envolvendo farol, gostei muito de ambos os livros. Lembro que o do Júlio Verne eu li naquelas edições da Círculo do Livro, que eu amava!
Em "A luz entre oceanos" acompanhamos a história de Tom Sherbourne, um ex combatente de guerra que aceita trabalhar como faroleiro em uma ilha isolada da costa da Austrália. Assim como acontece com diversos personagens da literatura que enfrentaram a guerra, Tom quer se permitir esquecer os horrores que viveu, as mortes que presenciou.
Tom não é um dos homens cujas pernas ficaram penduradas por um feixe de tendões, nem daqueles cujas entranhas jorraram de seu invólucro como enguias escorregadias. Nem seus pulmões virararm uma cola, nem seu cérebro uma pasta por causa do gás. Mas mesmo assim ele tem cicatrizes, tendo que viver na mesma pele do homem que fez o que tinha que ser feito na ocasião. Ele carrega essa outra sombra, que é lançada para dentro. (p.16)
Ele é designado para cuidar do farol da ilha de Janus Rock, na Australia. Lá ele passa a viver uma vida tranquila, porém solitária. Fazendo algumas viagens para o continente vez ou outra, ele vai tocando a vida na ilha, cuidando do farol com maestria. Ele é o tipo de personagem que faz tudo certo, que coloca toda sua energia em fazer o melhor que pode com o que tem. Um dia, em um evento na cidade, acaba por conhecer Isabel, uma mulher jovem e cheia de vida, que aceita se casar com ele e viver na ilha. Isabel é uma menina que perdeu seus irmãos no combate, na guerra. Agora ela se sente sozinha e esta acostumada com a vida simples e pacata. Tudo que ela deseja é formar uma família e cuidar dela, para recuperar aquele sentimento que se foi com os irmãos.
Eles se casam e se mudam para a ilha pois os contratos de Tom duram em torno de três anos cada. A vida na ilha vai acontecendo naturalmente e, tanto Isabel quanto Tom parecem adaptados a esse estilo de vida. Eles estão apaixonados e Isabel engravida.
Só que Isabel perde o bebê. E depois perde outro. Ela engravida novamente e está em estado mais avançado de gestação quando acaba por sofrer outra perda ao mesmo tempo que um barco aparece na ilha após uma tempestade, com um homem morto e uma bebê recém nascida dentro. E é aí que começa o grande dilema do livro: a bebê está viva, mas seu pai está morto.
Desesperada por ser mãe, Isabel decide ficar com o bebê e convence Tom de que é o melhor a se fazer, visto que o homem já está morto e nada se sabe sobre a mãe dessa criança. Ela argumenta que isso é um sinal, que o bebê apareceu ali para eles, que iria morrer se a embarcação não tivesse parado na ilha, que aquele bebê é para ser deles. Tom luta contra essa ideia mas, ao observar a alegria da esposa, acaba cedendo. Ele não se sente muito confortável e tenta fazê-la mudar de ideia, avisar a marinha que uma embarcação foi encontrada, que não é certo que fiquem com a bebê. Mesmo assim Tom cede e a bebê passa a crescer com eles na ilha. A justificativa para as pessoas do continente é que o filho deles chegou mais cedo, já que, isolados na ilha, ninguém podia saber que Isabel havia perdido mais um filho.
Acontece que essa bebê já tem uma mãe e essa família (da mãe biológica) tem sua própria história. Claro que, eventualmente, Tom e Isabel terão que enfrentar a realidade. Mas... o que será de cada um desses personagens? Qual será o destino deles? Qual será o destino dessa criança?
Minhas impressões:

Bom, agora deixa eu contar um pouquinho do que achei dessa leitura... A primeira parte desse livro é um tanto parada. Ela serve para desenvolver as principais personagens da história. Nessa parte conhecemos Tom, Isabel e as pessoas com quem convivem. E conhecemos também a ilha. Esse é um tipo de livro daqueles em que o cenário também vira personagem, sabe? A ilha acaba por se tornar personagem vivo dessa história pois o isolamento de Isabel e Tom é vivido intensamente dentro dos limites da ilha.
O dilema e o conflito vão aparecer só mais adiante. Porém, quando aparecem, chegam com tudo. Tom e Isabel passam a ter que lidar com o que fizeram (ela ficando com a bebê e ele lidando com seus conflitos internos de ter aceitado ficar com a bebê). Achei aquele tipo de livro que nos coloca a todo momento questionando o que faríamos no lugar de cada um dos personagens: a mãe biológica que perdeu seu bebê, a mulher que decidiu ficar com o bebê de outra, o homem que aceitou ficar com o bebê para ver sua esposa feliz, toda uma comunidade e, principalmente, a própria bebê (que cresce no meio de uma família e, em um segundo, tem a sua vida completamente virada de ponta cabeça).
O mais interessante, na minha opinião, é que é um tipo de livro que é escrito de forma que torcemos (pelo menos eu torci) por todos os personagens. Nós sabemos dizer quais são as escolhas erradas dos personagens mas nós torcemos por eles. E também nos irritamos com eles em igual proporção.
Então, apesar de ser um livro mais parado, mais introspectivo, ele não se torna chato, pelo simples fato de que o dilema ético e moral é gigante e os personagens são colocados a prova o tempo todo.
Finalizando...
Senti que foi uma boa experiência ler esse livro, mas não uma leitura arrebatadora como eu esperava e me lembrava do filme. A narrativa lenta me incomodou em alguns momentos, embora eu reconheça que esse ritmo contribui para aprofundar os dilemas morais da história. Gostei de como o livro explora a linha tênue entre o certo e o errado e a forma como cada personagem tenta justificar suas escolhas diante da dor.
Isabel me cativou no início, com sua alegria, sua coragem de amar e a força com que enfrenta as perdas, mas, ao longo da história, passei a me afastar dela. Sua insistência em impor suas decisões, mesmo quando isso significava sacrificar ainda mais Tom, me gerou desconforto. Tom, aliás, foi quem mais despertou minha empatia, justamente por carregar silenciosamente o peso das escolhas e da culpa, sofrendo por amor e lealdade.
Quando Hannah (a mãe biológica) entra na história, tudo muda. A partir dali, não consegui mais aceitar o silêncio e a demora em revelar a verdade. Senti pena de Tom, raiva por ele assumir um sofrimento que não era só dele e um conflito interno constante entre torcer por Isabel e reconhecer o tamanho da injustiça causada. No fim, "A Luz entre Oceanos" ficou para mim como uma leitura sensível e moralmente provocadora, que faz pensar, mas também deixa um gosto agridoce e incômodo, daqueles que continuam ecoando depois da última página.
P.S. - Depois de ler o livro, fui ver o filme novamente e não consegui terminar. O filme é realmente parado, demora demais para as coisas começarem a acontecer. Toda a intensidade moral que eu senti lendo o livro não funciona no filme porque a caracterização dos personagens é bem mais superficial. Interessante que tive experiências bem distintas ao ver o filme pela primeira vez (sem ler o livro) e depois de ler o livro.
Apesar de ser um livro bem introspectivo, acho que ele funciona bem dentro do que se propõe, inclusive tendo sido vencedor do Goodreads Choice Awards em 2012. Porém, não recomendo a leitura para quem não esteja acostumado com narrativas mais lentas e cheias de camadas.
Até a próxima!
n.45






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