Resenha | A guardiã dos finais felizes (Barbara Davis)
- Michelle Leonhardt
- Jan 12
- 4 min read
Olá leitores, tudo bem? Registro hoje impressões sobre o livro "A guardiã dos finais felizes" da autora Barbara Davis, publicado no Brasil em 2023 pela editora Culturama.
Ficha da obra:

Título: A guardiã dos finais felizes
Autor: Barbara Davis
Editora: Culturama Plural
Ano: 2023
Páginas: 480
Título Original: The keeper of happy endings
Minha avaliação: ⭐⭐⭐⭐ (4/5)
Sinopse: Soline Roussel é bem experiente no ramo dos finais felizes. Por gerações, sua família manteve um requintado salão de noivas em Paris, onde a magia é feita com agulha e linha. Dizem que a noiva usa um vestido Roussel tem garantida uma vida de alegrias. Mas perdas arrasadoras durante a Segunda Guerra Mundial deixam o mundo e o coração de Soline em ruínas, e sua fé no amor, abalada. Ela encaixota as lembranças e as guarda, junto com os sonhos destruídos, determinada a esquecer.
Décadas mais tarde, quando lidava com uma perda trágica, a aspirante à proprietária de galeria Rory Grant aluga o antigo imóvel de Soline e encontra uma caixa que contém cartas e um vestido de noiva vintage nunca usado. Quando Rory devolve os objetos, uma amizade improvável se desenvolve, e começam a vir à tona paralelos sinistros entre a vida de Rory e a de Soline. É claro que elas estavam destinadas a se conhecer, e que Rory pode ter a chave para reparar um erro de quarenta anos e abrir a porta para uma cura compartilhada e, talvez, um pouco de magia.
Essa história acompanha duas mulheres separadas pelo tempo, mas unidas por um mistério que atravessa gerações.
No passado, conhecemos Soline Roussel, uma jovem francesa criada em uma tradicional família de costureiras que, há décadas, confecciona vestidos de noiva capazes de carregar “encantamentos de amor”. Para Soline, a costura sempre foi mais que um ofício: era uma herança quase mágica, uma forma de proteger e abençoar as mulheres que usavam suas criações. Mas sua vida muda quando a Segunda Guerra Mundial chega à França. Separada da mãe, passa a trabalhar como voluntária em um hospital militar e se apaixona pelo médico Anson, com quem vive uma conexão profunda. Até que algo inesperado acontece e Soline precisa deixar toda sua vida para trás.
No presente, acompanhamos Aurora, uma jovem prestes a abrir uma galeria de arte. Ao alugar o antigo espaço onde funcionava o ateliê de Soline, ela encontra uma caixa com um objeto do passado. A descoberta desperta em Rory uma curiosidade crescente sobre a vida da antiga costureira, e ela acaba se aproximando da agora idosa Soline.
À medida que as vidas das duas mulheres se entrelaçam, passado e presente começam a dialogar. Rory se vê, sem perceber, dando voz ao que Soline deixou calado por décadas. E Soline, por sua vez, devolve a Rory algo que ela acreditava ter perdido para sempre: esperança.
Minhas impressões:
A primeira parte desse livro me pegou de cheio. A história de Aurora, sentindo-se meio perdida, tentando entender quem ela é e o que deve fazer, me permitiu uma identificação grande. Afinal, qual é a mulher que nunca se questionou na vida? Bateu aquela identificação que permeia quase todas nós: somos educadas de forma que duvidamos de nós mesmas, muitas vezes. É assim que se estrutura a sociedade.
Aí, logo quando começamos a conhecer Soline, com toda essa coisa meio mística da costura que eu já mencionei e mais o fato de saber que ela está vivendo na iminência de uma guerra (que nós como leitores conhecemos como foi, mas Soline não) foi suficiente para me pegar de jeito. Quem acompanha esse canto sabe como eu gosto de histórias ambientadas nesse período de guerra.
Fui pega de surpresa por muitos elementos dessa narrativa, eu pensava que seria uma daquelas histórias bem focadas na guerra, na fuga, na resistência. E não foi assim. Eu já li tantas narrativas desse período, algumas profundamente dolorosas, outras mais voltadas para laços familiares e afetivos, e sempre acabo encontrando um ponto que me toca. Nessa leitura o que mais me marcou foi perceber como a vida da Soline foi moldada pelo que ela perdeu, pelo que não conseguiu viver e por tudo o que permaneceu em silêncio. Diferente de alguns outros livros com a mesma temática, não é a dor física que mais feriu aqui, mas a ausência, a dúvida, a falta de um encerramento. Esse tipo de sofrimento sempre mexe comigo.
Preciso dizer que a parte da costura me capturou de um jeito que eu adoro. Acabei percebendo, com essa leitura, que sempre que aparece esse elemento (a costura) eu costumo ficar mais envolvida na história. Parece que existe algo de íntimo e quase terapêutico no ato de costurar, uma espécie de narrativa silenciosa que se constrói ponto por ponto. E aqui, com o toque mágico da família Roussell, esse detalhe ganhou ainda mais força.
As mulheres da família não apenas costuram roupas, elas costuram afetos, bênçãos, intenções. A existência da costura nas histórias me remete quase a uma coisa meio ancestral: o afeto é silencioso, mas é poderoso. A força está justamente no gesto delicado, mas que carrega uma carga emocional enorme.
Várias vezes eu me peguei pensando: "Se nós, como usuários, sentimos tanto o efeito de uma roupa, por que quem a cria não colocaria nela sombra, luz, intenção, memória?"
Sei lá, eu tenho esse sentimento de presença afetiva colocada em algo que continua existindo mesmo quando quem fez não está mais lá. O gesto é interno, mas o efeito é externo. Tive uma sensação bem parecida enquanto lia "O tempo entre costuras" da Maria Dueñas.
Como ressalva, senti um certo distanciamento do meio para o final do livro. Eu vinha tão envolvida com o mistério, com o passado, com a dor da Soline, que o encerramento rápido, encontrando as respostas de forma tão linear acabou me tirando um pouco daquele impacto emocional que eu estava sentindo. Toda a parte final do livro, onde os fechamentos vão sendo feitos, me pareceram apressados e até um pouco irreais/exagerados demais.
Ainda assim, foi uma leitura que me acompanhou por dias, especialmente porque gosto de livros que mesclam perdas, memórias e pequenas doses de esperança.
Finalizando...
Gostei dessa leitura e recomendo. Não há cenas picantes.
Até a próxima!
n.44






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