Resenha | Rompendo as correntes do Maafa (Anni Domingo)
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Olá!
Hoje o post é sobre o livro "Rompendo as correntes do Maafa" que eu li recentemente e que me marcou muito. Vem comigo!
Um pouco da história...
"Rompendo as correntes do Maafa" acompanha a história de duas irmãs, Salimatu e Fatmata, pertencentes ao povo Talaremba (algo como o sudoeste da Nigéria e o leste do Benim, na África Ocidental), que têm suas vidas brutalmente separadas pela escravidão. Ainda crianças, elas são arrancadas de sua terra e seguem caminhos diferentes, sem saber o que acontecerá uma com a outra. A partir daí, o livro alterna entre as duas trajetórias e mostra como a mesma violência pode produzir destinos completamente diferentes.
Salimatu é levada para a Inglaterra e acaba se tornando Sarah Forbes Bonetta, a jovem africana que realmente existiu e que foi apresentada à Rainha Vitória. Ela passa a viver cercada pela nobreza inglesa, recebe educação, muda de nome e, aos poucos, precisa conciliar a menina que foi com a identidade que lhe foi atribuída.
Fatmata, por outro lado, é levada para os Estados Unidos e passa anos escravizada. Rebatizada de Faith, sofre abusos, tem filhos e precisa deixá-los para trás quando é enviada para a Inglaterra. Mesmo depois de atravessar o oceano, ela percebe que a exploração ainda não desapareceu.
Essas duas histórias são contadas alternadamente e vamos descobrindo o destino de cada uma das irmãs, desde sua captura até o momento em que seus destinos se cruzam novamente.
Como foi minha experiência lendo "Rompendo as correntes do Maafa"?
Apesar de ter todos os ingredientes que eu gosto em uma história, confesso que demorei muito para terminar essa leitura. Não porque a história é ruim, mas porque é aquele tipo de livro que, para pessoas como eu, convida a querer aprofundar tudo.
Contextualizando: eu não sabia muito (na verdade quase nada) sobre esse livro antes de pegá-lo para ler. Ele foi o vencedor da votação em um clube que participo e eu decidi dar uma chance.
Como já comentei no resumo da história, o livro nos leva acompanhar duas irmãs africanas que são separadas ainda crianças, vítimas do funcionamento da escravidão na época. Esse plot já me pareceu promissor, mas eu não esperava que eu fosse me envolver tanto. Ou seja, para mim foi uma daquelas leituras em que a ficção funciona como uma porta para a História.
Cada trecho da história, desde o começo, me levou a querer aprender mais e mais. Eu simplesmente não conseguia seguir em frente quando aparecia alguma coisa que despertava minha curiosidade. A história me levou a pesquisar sobre Sarah Forbes Bonetta, a Rainha Vitória, o colonialismo britânico na África, os conflitos na África do Sul, a Underground Railroad, o movimento abolicionista, William Wells Brown, o Crystal Palace e a Grande Exposição de 1851. Também fui atrás da escultura The Greek Slave, de Hiram Powers, e da famosa representação abolicionista "Am I Not a Man and a Brother?". O próprio livro contextualiza várias dessas referências, mas eu queria ir além e entender o que havia por trás delas.
Sim, a história tem várias referências reais, talvez a principal delas a própria história de Sarah da vida real. Realmente existiu uma princesa negra, um fato que eu não conhecia.
E, ao mesmo tempo em que eu aprendia, eu sofria.
A separação das irmãs foi dolorosa. A cena em que Salimatu percebe que já não consegue visualizar o rosto de Fatmata me marcou bastante. Achei triste, mas também muito humana, porque crianças podem realmente perder memórias de pessoas que ficaram longe por muitos anos.
A trajetória de Faith foi especialmente difícil para mim. Ela sofre abusos, tem filhos que também são escravizados e precisa deixá-los para trás. Mesmo depois de tudo, continua preservando a identidade deles, chamando-os pelos nomes Talaremba, apesar dos nomes que lhes foram impostos. Gostei muito desse aspecto da personagem porque mostra que, quando tantas coisas podem ser arrancadas de uma pessoa, preservar um nome também pode ser uma forma de resistência.
Também gostei muito da construção de Sarah. Ela passa por uma transformação profunda. Salimatu continua existindo dentro de Sarah, mesmo quando ela já não se reconhece completamente nessa identidade.
Achei muito interessante como o livro trabalha a ideia de identidade sem transformar tudo em uma resposta simples. Sarah vive na nobreza, próxima da Rainha Vitória, mas continua sendo vista como uma princesa negra. Ao mesmo tempo, ela é levada de uma casa para outra e sente que outras pessoas decidem o seu destino. Faith, em condições completamente diferentes, luta para preservar aquilo que é seu.
O reencontro das duas foi uma das partes que mais gostei e, diferente de muitas pessoas que leram esse livro, não me desanimou. Durante boa parte do livro eu tinha certeza de que elas acabariam se encontrando. A autora foi criando vários momentos de aproximação, até chegar à exposição. E gostei muito de acompanhar primeiro o olhar de uma e depois o da outra, porque o reconhecimento das duas carrega todo o peso dos anos de separação.
Confesso que fiquei triste com o final. Eu queria algum tipo de reparação, que não aconteceu. Mas acho que, justamente por tratar de uma realidade histórica tão brutal, talvez um final completamente feliz não combinasse com a proposta do livro. A escravidão destruiu famílias de maneira irreparável. Nem todas as histórias tiveram um fechamento bonito.
Ainda assim, terminei sentindo que a leitura tinha valido cada página.
Eu aprendi, eu mergulhei, eu me emocionei. Demorei, mas aproveitei cada segundo.
Ficha do livro:

Título: Rompendo as correntes do Maafa
Autor: Anni Domingo
Editora: Alta Novel
Ano: 2023
Páginas: 416
Minha avaliação: (5/5) ⭐⭐⭐⭐⭐❤️
Sinopse: Um romance histórico muito autêntico sobre Sarah Forbes Bonetta, a escravizada da África Ocidental que se tornou afilhada da Rainha Vitória.”—Bernardine Evaristo, autora de Garota, mulher, outras
Na metade do século XIX, Salimatu e sua irmã Fatmata são capturadas, vendidas, separadas em diferentes rotas de escravidão, e seus nomes são alterados. Uma é enviada em direção à corte da Rainha Vitória, a outra, a caminho de uma plantação nos Estados Unidos.
Agora Sarah e Faith, será que as irmãs antes inseparáveis sobreviverão aos traumas da escravização sem ter uma à outra? Ou os fardos dos sistemas perversos da escravidão são pesados demais para seus jovens corações?
“Poderoso em detalhar as crueldades do comércio transatlântico de escravos, sensível e íntimo em seu retrato das lutas das meninas para manter sua dignidade e as memórias de sua herança africana. A história de Anni Domingo sobre Maafa, o Holocausto africano, é inesquecível.”
Observação: Não há cenas hot em "Rompendo as correntes do Maafa".
Resumo da minha opinião: vale a pena ler?
Como não dar uma avaliação boa para um livro que me fez ficar tão envolvida? Claro que eu avaliei com 5⭐. Então sim, vale a pena ler esse livro.
Recomendo especialmente para quem gosta de romances históricos baseados em personagens e acontecimentos reais, histórias de mulheres, narrativas sobre escravidão e diáspora africana e livros que despertam a vontade de pesquisar fatos históricos mais a fundo.
Sim, é uma leitura emocionalmente pesada em vários momentos. Há violência, escravidãos, separação familiar... Portanto, não espere um livro leve, embora também tenha momentos de amor, esperança, amizade e resistência.
Por fim, não espere que a história seja suavizada para proporcionar um final confortável. O livro me deixou triste em vários momentos e o final não foi exatamente do jeito que eu queria. Porém, isso não diminuiu minha experiência, pelo contrário, acho que tornou a história mais coerente com aquilo que ela se propõe a contar.
Então tá, até a próxima!





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