Resenha | Exílio (Christina Baker Kline)
- 1 day ago
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Olá!
Hoje eu estou aqui para falar das minhas impressões sobre o livro "Exílio" da Christina Baker Kline que eu li na versão publicada no Brasil pela Harper Collins. Esse é um dos livros que eu ganhei ano passado e que eu estava bastante animada por já ter lido outro livro dessa mesma autora (se quiser saber mais tem o post sobre "O trem dos Órfãos" nesse blog).
Bom, minha relação com essa leitura começou mesmo antes da primeira página. Além de eu já ter lido outro livro da autora e de ter sido um presente, eu nunca tinha lido nada com fundo mais mais histórico ambientado na Austrália, pelo menos não recentemente. Acho que o último livro que eu li ambientado na Austrália foi "A luz entre oceanos".
Um pouco sobre o enredo e personagens de "Exílio"
O livro começa acompanhando o desenrolar da história de duas personagens distintas: Evangeline e Mathinna.
Mathinna é uma menina de cerca de 8 anos nascida em Wybalenna, um local remoto da ilha de Flinders, na Austrália, onde seu povo vivia exilado antes mesmo de ela nascer. Ela é do povo Palawa (aborígenes da Tasmânia, povos indígenas da ilha de Lutruwita). Em uma visita do governador e sua esposa ao povo em questão, a mulher se encanta por Mathinna e decide levá-la para morar com eles e educá-la.
Aqui já vou fazer um parênteses para contextualizar: a história do livro se passa ali pelos anos de 1840 e posteriores, tempo não muito curto após a tentativa de erradicação da população Palawa pelos colonizadores britânicos que ocorreu em 1830. Pelas minhas pesquisas, uma das caracteríticas desse povo é a de acreditar que a terra é a própria força vital e se entrelaça com sua identidade (mais fontes para entender o povo Palawa: verbete da wikipedia em português Aborígenes Tasmanianos, artigo em inglês da enciclopédia Britannica.
"- Ah, eu a achei charmosa - afirmou Lady Franklin. Gostaria de ficar com ela.
Ficar com ela? Mathinna olhou para Robinson, tentando encontrar seu olhar, mas ele não olhou para ela de volta.
Sir John pareceu se divertir.
- Você quer levá-la para casa conosco? Depois do que aconteceu com o último?" (pg. 13)
Evangeline é uma menina de 21 anos que trabalha como governanta na casa de uma família (a família Whitstone) e acaba por se envolver romanticamente e secretamente com o filho dos seus patrões, o jovem Cecil. Ele dá a ela um anel de rubi e parte para passar um tempo fora, deixando-a grávida. Quando esse anel é encontrado por outra empregada da casa, Evangeline é acusada de roubo e é posteriormente presa e condenada ao exílio na Austrália, onde deve cumprir pena por 14 anos.
"- Mas... eu posso voltar depois que cumprir a pena?
A risada dele foi isenta de compaixão, mas não exatamente cruel.
- É do outro lado do mundo, senhorita. É mais fácil velejar em direção ao sol." (pg. 53)
Partindo desse ponto, a história passa a acompanhar, paralelamente, a nova vida de Mathinna junto com o governador e sua esposa e a viagem de Evangeline, grávida e condenada, no navio Medeia.
Mathinna precisa se adaptar a uma nova vida enquanto enfrenta um conflito silencioso: ela é uma menina Pallawa retirada de seu povo e inserida em um mundo que tenta apagar tudo aquilo que ela era. Claro que há conflitos que acontecem nesse processo pois, afinal, Mathinna é só uma criança tentando lidar com sentimentos e situações maiores do que ela mesma.
No navio, Evangeline precisa lidar com a sua gravidez e com as circustâncias difíceis que a travessia impõe: a insalubridade da vida no navio, o conflito entre as próprias mulheres prisioneiras, o assédio dos homens, a incerteza do destino e o próprio parto. Nesse processo ela acaba se aproximando e conhecendo a terceira grande personagem dessa história: Hazel.
Hazel é uma jovem de cerca de 16 anos (também condenada ao exílio pelo roubo de uma colher de prata) e talvez tenha sido minha personagem favorita. Inteligente, prática e extremamente resiliente, ela possui conhecimentos de medicina, sabe cuidar de ferimentos, preparar emplastros e agir rapidamente nas situações mais difíceis. Ao longo da história, é ela quem conecta diferentes personagens e representa, para mim, um dos temas mais bonitos do livro: o cuidado.
Não quero falar muito mais do que isso pois a partir daqui tudo que eu escrever pode dar chances para spoilers. O que eu posso dizer sobre o resto da história é que muitas coisas acontecem e as personagens de ambos os núcleos se encontram, como é característico com esse estilo de narrativa.
Meus sentimentos e impressões sobre "Exílio"
Eu gostei muito dessa leitura e muitas coisas nela me marcaram. Não posso deixar de falar sobre o meu amor por romances de ficção histórica que ganham todo o meu coração já há alguns anos. Eu adorei conhecer um episódio histórico pouco explorado, pelo menos nas minhas leituras.
Enquanto lia, fui marcando todos os lugares citados em um mapa e pesquisando quais ainda existem. Foi uma forma de tornar a leitura muito imersiva. Em vez de apenas imaginar a jornada de Mathinna, Evangeline e Hazel, consegui literalmente acompanhar seus caminhos pela Tasmânia, pela Inglaterra e, mais tarde, por Melbourne. Isso transformou a leitura em uma experiência ainda mais rica.
Aliás, deixo aqui um site que encontrei descrevendo o orfanato que é mencionado na história. Inclusive, o prédio ainda existe. Não só esse, como muitos outros locais do livro.
Mathinna foi uma persongem que me despertou muito interesse em pesquisar sobre a cultura Palawa e seu processo de civilização. Além disso, me fez pensar sobre a maior questão que ela enfrenta na história: o roubo de sua identidade e o poder de sua cultura. Há uma cena específica no livro que me fez arrepiar quando ela percebe que a sua herança cultural é mais forte do que tudo. Acho até que foi algo que a autora colocou justamente para ilustrar a própria história: a pesquisa que fiz mostrou que o povo Palawa lutou para manter sua cultura. Achei incrível a escolha narrativa para simbolizar esse fato.
O destino final da personagem, apesar de não ser o esperado pelo leitor, é perfeito para reforçar ainda mais esse fato. Gostei muito por ser verdadeiro (e não gostei também porque queria que fosse diferente) e por entender que ela precisava fazer a escolha que fez.

Algumas passagens desse livro foram muito doloridas de ler e me marcaram demais. Uma delas ocorre com Evangeline, logo após a parto de sua bebê. É praticamente impossível ler esse livro sem se emocionar. Essa autora escreve muito bem. Eu queria transcrever a frase que mais me impactou no livro todo aqui, mas é um baita spoiler. Uma pena.
Já que estou comentando sobre a escrita, a autora novamente fez um trabalho de pesquisa impecável. Além de ser filha de um historiador, ela conta que viveu na Austrália e que esse fator foi um grande motivador para a ideia e escrita do livro. Apesar de ser uma obra de ficção, a história da família de Mathinna é real (com a diferença de que a criança verdadeira tinha 5 anos ao ser levada de sua terra para viver com a família). Ela também comenta que, hoje em dia, 20% dos australianos são descendentes de condenadas britânicas exiladas. Inclusive, há um museu da fábrica feminina de Cascades, outro local importantíssimo nesse enredo.
Achei muito interessante a forma como a autora trabalha diferentes temas sem perder a naturalidade da narrativa:
colonização e apagamento cultural
maternidade
amizade feminina
resiliência, reconstrução e esperança
identidade e pertencimento
Eu adorei e tive aquela sensação bem comum de leitor: eu queria devorar logo para saber o que ia acontecer, mas preferi ler devagar e me segurar para que eu não ficasse sem viver a história. Gostei muito do ritmo da narrativa. Em nenhum momento senti que a autora sacrificou o desenvolvimento das personagens para explicar o contexto histórico. Pelo contrário: a História aparece através da vida dessas mulheres, o que torna tudo muito mais envolvente.
Sim, porque eu vivi intensamente esse livro quase como se eu estivesse lá na Austrália junto com todo mundo. Eu comecei o livro interessada e curiosa sobre se passar na Austrália e terminei apaixonada pela capacidade que a ficção histórica tem de transformar acontecimentos históricos em vidas que parecem muito reais. Que bom que os livros me permitem viver tudo isso!
Ficha do livro:

Título: Exílio
Autor: Christina Baker Kline
Editora: Harper Collins
Ano: 2023
Páginas: 302
Minha avaliação: (5/5) ⭐⭐⭐⭐⭐❤️
Sinopse: Londres, 1840. Grávida, a jovem governanta Evangeline definha na Penitenciária de Newgate por meses após ser acusada injustamente de roubo. Enviada para o exílio na colônia penal Terra de Van Diemen, localizada na recém-colonizada Austrália, ela embarca no navio Medeia. É onde conhece a parteira Hazel, que recebeu uma sentença de sete anos por roubar uma colher de prata. E o caminho dessas mulheres se cruza com o da menina aborígene Mathinna, cuja comunidade fora expulsa de seu território pelos colonos britânicos.
Da autora best-seller do New York Times Christina Baker Kline, Exílio é uma emocionante, brutal e envolvente história que narra a devastação de toda uma terra e o nascimento de uma amizade entre mulheres vítimas de um sistema impiedoso. Mas, em meio às mudanças, nem todas serão capazes de encontrar a liberdade e um espaço seguro para si no outro lado do mundo.
Observação: Não há cenas hot nesse livro.
Resumo da minha opinião: vale a pena ler "Exílio"?
Eu sou muito suspeita para falar já que se trata do meu gênero preferido do momento. Ao fim dessa leitura dei ⭐⭐⭐⭐⭐ para o livro, não consegui ver nenhum aspecto que me fizesse ter vontade de tirar pontos. Coloquei o livro na lista de favoritos também.
Para quem indico? Para todos os apaixonados por livros que tragam essa bagagem histórica e que gostam de personagens reais e cenas emocionantes. Leiam, é muito bom.
Para os demais leitores eu diria que é um livro de ficção histórica muito potente, porém com uma escrita mais leve. A autora sabe dosar bem os pontos de sofrimento inerentes ao contexto histórico, sem ser superficial demais. É um livro de fundo histórico mas com um enredo muito emocionante e que se sustenta sozinho dentro de seu conflito principal (se por acaso o leitor não tiver interesse em destrinchar o lado histórico).
E vocês? Já leram algum romance histórico que apresentou um episódio da história sobre o qual sabiam muito pouco? Se sim, me contem nos comentários. Adoro quando um livro consegue despertar essa curiosidade e me faz continuar pesquisando muito depois da última página. Se tiverem indicações de outras histórias que misturem ficção e acontecimentos históricos pouco conhecidos, vou adorar conhecer.





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