Resenha | As quatro vidas de Daiyu (Jenny Zhang)
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Hoje passo por aqui para falar sobre o livro"As quatro vidas de Daiyu", que eu li recentemente. Antes de dar minhas impressões, segue a ficha técnica:
Ficha da obra:

Título: As quatro vidas de Daiyu
Autor: Jenny Zhang
Editora: Vestígio
Ano: 2024
Páginas: 352
Minha avaliação: 3,5/5
Sinopse: China, 1882.
Daiyu é uma menina que recebe o nome de uma trágica heroína folclórica. Ela mora com os pais e a avó em uma pequena vila, onde leva uma vida tranquila e feliz. Quando seus pais são presos e mortos por desafiarem o governo, Daiyu é obrigada a fugir para a cidade vizinha de Zhifu para não ter o mesmo destino.
Por algum tempo, Daiyu consegue sobreviver disfarçada como um menino órfão chamado Feng e trabalhar para um mestre de caligrafia. Mas seu destino muda novamente quando ela é sequestrada e forçada a aprender o inglês antes de ser contrabandeada para os Estados Unidos.
Chegando lá, precisa novamente encontrar estratégias de sobrevivência ao mesmo tempo em que se apaixona e acredita que enfim conseguirá ser livre. Mas são tempos terríveis no novo país e Daiyu é confrontada com a dura realidade da violência contra os imigrantes chineses, que coloca em risco a segurança de seus amigos e sua própria vida. As quatro vidas de Daiyu é um romance arrebatador sobre amor, preconceito e sobrevivência que emociona do começo ao fim.
Pontos fortes e fracos:
Decidi organizar esse post de uma forma diferente do que normalmente organizo pois achei bem difícil escrever sobre esse livro e, ao mesmo tempo, me fazer entender. Por isso, vou apenas enumerar os pontos que eu conseiderei positivos e negativos e só depois vou falar com mais detalhes sobre meus sentimentos e impressões, daí com spoilers. Então vamos nessa:
Pontos positivos:
É uma obra com conteúdo histórico rico e com pano de fundo sobre o qual eu ainda não tinha lido a respeito: a lei de exclusão chinesa (na wikipedia tem verbete em português explicando certinho). A autora fala sobre isso e monta todo o enredo com base em um acontecimento específico da época (não vou entrar em detalhes pois ainda não darei spoilers).
A proposta é bem legal, a história se divide em partes e cada parte conta uma dessas vidas da personagem, onde ela teve que adotar diferentes identidades. Acompanhamos cada uma dessas fases seu impacto.
Há uma certa imersão na cultura chinesa na medida em que a autora explora uma obra prima da literatura local dentro do próprio enredo, além de falar sobre caligrafia, que é bem interessante de acompanhar.
O final dessa história é triste sim (aqui um spoiler necessário), mas é muito real e muito interessante dentro da proposta da autora. Apesar do acontecimento triste, há um fechamento emocional bem interessante e muito coerente.
Pontos negativos:
Bem, o que eu vou destacar aqui como ponto negativo é baseado puramente na minha opinião pessoal leitora (e é importante eu destacar esse ponto pois o que não funciona para mim pode funcionar para muita gente).
É uma história que usa recursos narrativos que eu acho que não combinaram bem: a escrita lírica, metáforas e alegorias.
O ritmo é um pouco irregular. Algumas passagens são extremamente detalhadas enquanto outras são mais superficiais, gerando uma quebra narrativa em alguns momentos (eu me senti assim). Senti falta de um desenvolvimento mais uniforme.
Algumas das situações narradas (talvez por estarem dentro de uma passagem mais superficial) passam uma impressão de pouco condizentes com a realidade, ex: como ninguém (ou quase ninguém) realmente percebeu que era uma menina, mesmo em situações em que seria praticamente impossível não perceber?
Minhas impressões e pensamentos (agora com alguns spoilers):
Terminei "As Quatro Vidas de Daiyu" com uma sensação difícil de definir… não é um livro ruim, muito pelo contrário. A história é forte, necessária, cheia de dor, perdas e sobrevivência. Mas, ainda assim, algo não me alcançou como eu esperava.
Acompanhamos Daiyu ao longo de diferentes momentos da sua vida, todos marcados por deslocamento, violência e tentativa de reconstrução. O contexto histórico é impactante, o enredo tem peso e o desfecho faz sentido dentro da proposta… é triste, mas traz uma espécie de paz que eu achei que era bem necessária dentro da proposta do livro. Tudo isso são características que eu gosto muito e procuro nas minhas leituras.
O que me impediu de me conectar profundamente com a história foi a forma como ela é contada.
O livro utiliza com frequência um recurso que vai além do lirismo tradicional. Não é apenas uma escrita mais poética ou sensível… em muitos momentos, a dor da personagem é transformada em imagem, em símbolo. E mais do que isso: esses símbolos ganham forma dentro da narrativa.
A própria figura de Lin Daiyu, da história que dá nome à personagem (mais informações nesse link da wikipedia), aparece como uma presença com quem ela interage. Não é apenas uma metáfora… é como se essa metáfora ganhasse corpo, voz, intenção. Uma espécie de alegoria personificada, em que a personagem conversa com uma representação simbólica de si mesma (através da figura de Lin Daiyu), da sua dor, da sua identidade.
Eu entendo (ou suspeito) o que o livro tenta fazer com isso. Na minha opinião, existe uma tentativa de traduzir emoções profundas, de dar forma ao que seria difícil expressar diretamente. Em teoria, é um recurso muito rico… mas, para mim, teve o efeito oposto.
Em vez de me aproximar da dor, eu me senti afastada dela.
Houve cenas muito duras (como a morte de personagens próximos da protagonista) que são descritas com imagens bonitas, quase etéreas. A linguagem transforma o sofrimento em algo visualmente elaborado, simbólico. E, nesses momentos, quando eu começava a me envolver mais, parecia que a narrativa me puxava para fora… como se colocasse um filtro entre mim e a experiência da personagem.
Inclusive, fiquei pensando bastante nisso. Já li livros em que o lirismo funcionou muito bem para mim, principalmente com personagens mais jovens, onde o lirismo parecia uma forma de proteção, de elaboração de um trauma. Só que, em Daiyu, apesar de a protagonista ser ainda uma criança, ela é obrigada a amadurecer rapidamente e vive situações extremamente duras. Aí a escolha desse excesso de poesia suavizou demais o impacto que eu esperava para a personagem. Talvez o lirismo sozinho funcionasse. Talvez a metáfora, por si só, também. Mas a combinação de ambos, somada a essa “materialização” simbólica, me afastou emocionalmente.
Eu queria (e esperava) sofrer com a Daiyu. Queria sentir o peso do nome, o desespero, a transformação profunda que a história prometia. Mas, no fim, fiquei mais no campo da admiração do que da conexão.
Ainda assim, reconheço a força da narrativa, a importância do tema e a coerência do desfecho. Por isso a avaliação final em 3,5 ⭐: neutra sim, mas pendendo um pouco para o positivo. Eu realmente queria ter vivido essa história com um pouco mais de profundidade emocional.
Vale a pena ler?
Como sempre, vou finalizar o post da mesma forma:
Vale a pena e é um livro que pode funcionar muito bem para leitores que se conectam com esse tipo de escrita mais simbólica, mais contemplativa. Que gostam de desvendar e interpretar as nuances.
Não vale se essa escrita não é pra você ou se você procura uma história com mais linearidade de desenvolvimento.
E fico curiosa para saber: vocês já leram livros em que o lirismo, ou esse uso mais simbólico da linguagem, aproximou ou afastou vocês da história?
Até a próxima.
n.51





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